Ashanti estava com os jovens aprendizes em sua sala de aula, na cidade-satélite de Juth, quando os primeiros sons da batalha começaram a chegar a seus ouvidos. No início algo que pareciam ordens, sendo gritadas de forma ininteligível, depois os primeiros disparos laser. E em seguida, como era de se esperar, os primeiros gritos agonizantes da morte. Algumas pequenas explosões, e as crianças começaram a chorar, deixando Ashanti muito apreensiva.
Sentindo que algum perigo era iminente, Ashanti encaminhou a turma de alunos para a sala antifogo do complexo, e ordenou à monitora da turma, uma aluna já adolescente, que trancasse a porta por dentro e só abrisse para quem soubesse a senha de segurança da sala. Embora Noriad fosse pacífica, e nenhum noriadiano ainda vivo tivesse testemunhado qualquer guerra, a segurança era um aspecto muito bem observado. Mesmo em uma escola cada setor possuía uma senha, que deveria ser trocada de tempos em tempos, de modo a garantir que só as pessoas corretas a conhecessem. Ashanti se voltou para os corredores, e com muita pressa se dirigiu ao centro de comando, enquanto os primeiros gritos e explosões já ecoavam dentro da cidade.
De um corredor próximo, um ruído chamou a atenção de Ashanti. Ela rapidamente se escondeu atrás de uma porta, e ficou espreitando.
A medida que o som foi crescendo, uma máquina como Ashanti nunca tinha visto antes passou pelo corredor, enquanto a mulher observava por uma fresta na porta. Era um tipo qualquer de exoesqueleto, que aparentemente suportava um ser humano em seu interior, coberto por uma carapuça energética, um campo de força. Fortemente armado, flutuava levemente a alguns centímetros do solo.
Ashanti esperou alguns segundos e quando não ouviu mais nada voltou para o corredor. Começou a raciocinar sobre o que tinha visto, e somente uma explicação era possível para tudo isso. Não era um defeito na tubulação de gás, nem invasão de animais selvagens, como ela havia pensado primeiramente. Juth realmente estava sob ataque, e a julgar pela estranha máquina, não poderia ser nem um ataque yvotano, nem akutnoriano, já que Ashanti julgava conhecer todas as armas dessas nações. Só poderia ser um ataque dos pretensiosos Sagrados do Reino do Sul.
Decidiu por conseguir algum tipo de armamento, para a necessidade de combater. Ashanti era uma exímia lutadora. Assim como o marido Califar, freqüentou a academia militar de Noriad, mas uma vez formada preferiu exercer a profissão de professora, ao contrário do marido, que preferiu entrar para o exército. As habilidades, porém, ela ainda mantinha bem treinadas, assim como o condicionamento físico do seu corpo. Ashanti era uma mulher muito bonita, alta, de formas esguias e longos cabelos negros como o céu. Emoldurados por esses cabelos, um rosto esguio com olhos castanhos profundos.
Saiu do prédio por uma janela no primeiro andar, usando um cabo de comunicações para chegar ao solo. Esgueirando-se por várias ruas e becos, evitando mais duas máquinas como a primeira, focos de batalha e uma dupla de soldados num estranho uniforme azul, Ashanti enfim conseguiu chegar à sede militar do setor, e ao arsenal do local. A batalha já havia passado por ali, e vários homens estavam mortos, os corpos exalando o cheiro fétido da morte. Felizmente, ainda havia algumas poucas armas espalhadas por entre os corpos. Dando mais importância à própria mobilidade do que ao poder de fogo, pegou apenas duas leves pistolas laser de curto alcance, e uma faca disruptora. Embainhou a faca em suas costas, na calça, e com uma pistola em cada mão voltou para as ruas.
Decidida a ir até o prédio de comunicações desse setor, para avisar a cidade-capital, Iad, Ashanti continuou sua estratégia de se mover pelas sombras, evitando a atenção dos homens e os ruídos de batalhas cada vez mais freqüentes na cidade. A raiva que ela sentia só podia ser controlada graças aos vários anos de experiência em situações de guerra fornecidos pelo duro treinamento da academia. Durante sua jornada pelas ruas, Ashanti não conseguia deixar de pensar na experiência fora da cidade que teve no primeiro ano de treinamento da academia militar, em uma disciplina chamada sobrevivência subzero.
“Todos os alunos desembarcarão a uma distância equivalente a quarenta quilômetros do ponto de encontro. Serão fornecidos como material apenas suprimento alimentar para dois dias, uma pistola laser com carga limitada, um cantil com sistema térmico independente, um uniforme térmico em boas condições de uso, um estojo de reparos para uniforme térmico, um estojo de primeiros socorros e um estojo de construção de fosso térmico. Além disso, para os que não agüentarem a tarefa, possivelmente a maioria de vocês, um aplicador de soro criotrânsico, e um rádio para pedir salvamento. Não preciso lembrar a vocês, que qualquer aluno que recorrer a esse recurso será expulso da academia permanentemente. Todos já foram instruídos em como usar os aparelhos, portanto, não direi mais nada. Para encerrar, um último lembrete. A unidade onde estamos voando não aterrissará para que vocês possam descer. Todos pularão de uma altura de dois ou três metros, em um local escolhido por vocês, a uma velocidade baixa o suficiente apenas para evitar que vocês morram. Se alguém quebrar algum osso durante a descida, tem como escolha continuar, ou chamar ajuda. As regras são as mesmas para quem pedir ajuda por causa disso. Ao escolher o local, procurem por um fosso de neve fofa, como vocês já foram ensinados a reconhecer. Nenhuma pergunta, o primeiro aluno pode se preparar para saltar.”
Ashanti se lembrava claramente dos comentários duros do instrutor de sobrevivência subzero. Não se julgava capaz de sobreviver àquilo. Mas quando aterrissou na neve fofa, sem se machucar seriamente, e viu a unidade indo embora, se sentiu ao mesmo tempo capaz de qualquer coisa, e irremediavelmente perdida. Mas o que ela poderia fazer naquele momento além de lutar? Ajustou a claridade de seus óculos de campo, e depois de consultar a bússola, começou a caminhada. A temperatura ao redor dela quase chegava a -100 graus e a sensação térmica era de um frio muito maior graças ao vento.
A ausência de uma estrela ativa no sistema de Naradan tinha há muitos anos eliminado o conceito de noite/dia, que Ashanti só conhecia dos arquivos e simulações dos computadores da academia. Assim, para o desafortunado viajante da neve, era possível escolher os próprios horários de viagem de forma completamente pessoal. O clima em Naradan era bem estável, sendo sempre obviamente muito frio, e com ventos fortes. As fortes chuvas de Naradan ocorriam principalmente nas regiões perimetrais às crateras, as únicas áreas quentes o suficiente para evaporar água e criar chuvas, sempre atingindo as nações de forma intensa. Além da claridade das estrelas e dos óculos de campo, durante a maioria do tempo, em qualquer ponto do planeta, pelo menos uma das três opacas luas de Naradan estava no céu para dar uma tímida ajuda para que o viajante pudesse discernir melhor entre as diferentes formações do solo, rochas, bancos de neve, bancos de gelo, etc. Para o viajante da neve, nada é mais importante do que conservar calor.
“Habitualmente, quando se viaja na neve em campo aberto, a pé, se faz um calculo de distância e tempo gasto. O tempo de viagem diário é definido a partir disso, de forma decrescente. Ou seja, viaje mais no primeiro dia, e vá diminuindo o tempo de viagem dia após dia. Isso evita desperdício de energia. Aliado a isso, o consumo de suas reservas alimentares deve crescer a cada dia. Lembrem-se que a única forma eficiente de se gerar calor pessoal na neve é a alimentação hipercalórica propiciada pelas rações. O período dentro do fosso térmico não lhes dá energia, apenas evita sua perda durante o descanso, ajudando seu corpo cada vez mais debilitado a metabolizar melhor sua alimentação. É um cálculo muito importante. Qualquer erro nesse cálculo pode acarretar a morte do viajante. Se vocês perceberem um erro em seu cálculo trilha/descanso, consertem de imediato. E torçam para que não seja fatal. Na maioria das vezes é.”
Ashanti também se lembrava com clareza dos ensinamentos do seu instrutor-da-neve. Enquanto estava lá em campo aberto, se lembrou das características do traje térmico, e sua capacidade de vedação contra o mortal frio externo. Sabia que durante a viagem o calor seria perdido, e somente as crescentes horas em um fosso térmico cavado profundamente na neve e alimentação hipercalórica poderiam evitar uma hipotermia fatal.
Seus pensamentos foram interrompidos por um grito vindo de uma das construções próximas, uma voz que Ashanti conhecia muito bem, pois era a voz de um amigo. Quando Ashanti reconheceu a voz de Abel suplicando pela própria vida, não pôde resistir.
Adentrou o prédio de onde vinham os gritos, e subiu correndo as escadarias em direção aos gritos de Abel. Correu por mais alguns passos pelo corredor, até a sala de onde vinham os gritos, arrombando-a com um chute. De imediato, contou dois homens no mesmo uniforme azul que vira anteriormente.
Rolou para o lado se esquivando de um tiro dado por um dos soldados, e imediato começou a atirar contra os dois. Porém, como ela percebeu de imediato, o estranho traje aparentemente absorvia o disparo laser, sem sofrer qualquer tipo de dano.
Terminou o movimento de rolagem agachada atrás de um balcão feito de pedra, que, como esperava Ashanti, deveria retardar suficientemente os disparos dos inimigos enquanto ela pensava em uma nova estratégia. Olhou para um lado, e em seguida para o outro lado, e colocou uma das pistolas na cintura, pegando a faca disruptora.
Quando os soldados se aproximaram do balcão, com as armas em punho, um de cada lado, Ashanti em um movimento muito rápido, pulou para trás, caindo agachada sobre o balcão. Novamente em uma velocidade muito grande, fez um arco com a mão direita da faca, em angulo decrescente, cortando o uniforme do soldado do ombro direito, pelo peito, saindo do lado esquerdo do corpo. O sangue do homem jorrou por sobre a bancada, mas Ashanti já havia saído dali, seguida de perto pelos disparos do outro soldado. Aterrissando no solo poucos momentos depois do corpo do primeiro homem bater inerte no chão, Ashanti resolveu apostar tudo em um único movimento, e jogou a faca na direção do soldado, mirando o peito. Infelizmente, o lançamento foi em vão, já que o soldado conseguiu rebater a faca usando sua pesada arma laser. Girando a arma para o local onde Ashanti se encontrava quando jogou a faca, o soldado se deparou com um local vazio. Olhou para os lados, e viu apenas Abel tentando se esconder atrás de uma mesa de informações. Foi quando olhou para cima, e notou a portinhola de ventilação aberta. Atirando para cima de forma quase incessante, fez vários rasgos na tubulação, mas a ausência de um grito por sua vitima começou a deixar o soldado
Ashanti nunca entrou na porta de ventilação; se escondeu novamente atrás do balcão, e com um rápido disparo cortou a trava da portinhola. E enquanto o soldado atirava para cima inutilmente, recuperou a faca e completou o serviço.
Abel correu chorando para perto de Ashanti, com várias escoriações no rosto. Ainda bastante nervoso, falando de forma quase ininteligível, disse para ela:
- Ashanti, obrigado, eu pensei que ia morrer, esses homens, tomaram toda a cidade, fizeram o prefeito de refém, mataram muitas pessoas, Ashanti, eu...
- Calma Abel. – Disse Ashanti, compreensiva, para o amigo, que não tinha nenhuma experiência militar. – Quero que você se esconda, enquanto eu vou tentar chegar ao prédio de comunicações do setor, e avisar Iad. Não saia do seu esconderijo sob hipótese alguma.
Ashanti pegou a arma de um dos soldados, e apontando para um dos corpos inertes no chão, deu um disparo. Novamente o uniforme absorveu o laser, deixando Ashanti bastante apreensiva.
- Esses uniformes podem absorver laser. Isso torna dificílimo combatê-los. Mas agora vá, porque eu tenho que...
Mas Ashanti nunca completou a frase. Um raio a atingiu pelas costas, vindo da abertura formada pela porta arrombada da sala. Ashanti ainda conseguiu se virar para ver o atacante, mas tudo que pôde ver foi um borrão azul atirando novamente, agora contra Abel, antes que o mundo ao seu redor se apagasse.