sábado, 23 de outubro de 2010

Naradan: Chegada em Noriad - parte 2

Ashanti estava com os jovens aprendizes em sua sala de aula, na cidade-satélite de Juth, quando os primeiros sons da batalha começaram a chegar a seus ouvidos. No início algo que pareciam ordens, sendo gritadas de forma ininteligível, depois os primeiros disparos laser. E em seguida, como era de se esperar, os primeiros gritos agonizantes da morte. Algumas pequenas explosões, e as crianças começaram a chorar, deixando Ashanti muito apreensiva.

Sentindo que algum perigo era iminente, Ashanti encaminhou a turma de alunos para a sala antifogo do complexo, e ordenou à monitora da turma, uma aluna já adolescente, que trancasse a porta por dentro e só abrisse para quem soubesse a senha de segurança da sala. Embora Noriad fosse pacífica, e nenhum noriadiano ainda vivo tivesse testemunhado qualquer guerra, a segurança era um aspecto muito bem observado. Mesmo em uma escola cada setor possuía uma senha, que deveria ser trocada de tempos em tempos, de modo a garantir que só as pessoas corretas a conhecessem. Ashanti se voltou para os corredores, e com muita pressa se dirigiu ao centro de comando, enquanto os primeiros gritos e explosões já ecoavam dentro da cidade.

De um corredor próximo, um ruído chamou a atenção de Ashanti. Ela rapidamente se escondeu atrás de uma porta, e ficou espreitando.

A medida que o som foi crescendo, uma máquina como Ashanti nunca tinha visto antes passou pelo corredor, enquanto a mulher observava por uma fresta na porta. Era um tipo qualquer de exoesqueleto, que aparentemente suportava um ser humano em seu interior, coberto por uma carapuça energética, um campo de força. Fortemente armado, flutuava levemente a alguns centímetros do solo.

Ashanti esperou alguns segundos e quando não ouviu mais nada voltou para o corredor. Começou a raciocinar sobre o que tinha visto, e somente uma explicação era possível para tudo isso. Não era um defeito na tubulação de gás, nem invasão de animais selvagens, como ela havia pensado primeiramente. Juth realmente estava sob ataque, e a julgar pela estranha máquina, não poderia ser nem um ataque yvotano, nem akutnoriano, já que Ashanti julgava conhecer todas as armas dessas nações. Só poderia ser um ataque dos pretensiosos Sagrados do Reino do Sul.

Decidiu por conseguir algum tipo de armamento, para a necessidade de combater. Ashanti era uma exímia lutadora. Assim como o marido Califar, freqüentou a academia militar de Noriad, mas uma vez formada preferiu exercer a profissão de professora, ao contrário do marido, que preferiu entrar para o exército. As habilidades, porém, ela ainda mantinha bem treinadas, assim como o condicionamento físico do seu corpo. Ashanti era uma mulher muito bonita, alta, de formas esguias e longos cabelos negros como o céu. Emoldurados por esses cabelos, um rosto esguio com olhos castanhos profundos.

Saiu do prédio por uma janela no primeiro andar, usando um cabo de comunicações para chegar ao solo. Esgueirando-se por várias ruas e becos, evitando mais duas máquinas como a primeira, focos de batalha e uma dupla de soldados num estranho uniforme azul, Ashanti enfim conseguiu chegar à sede militar do setor, e ao arsenal do local. A batalha já havia passado por ali, e vários homens estavam mortos, os corpos exalando o cheiro fétido da morte. Felizmente, ainda havia algumas poucas armas espalhadas por entre os corpos. Dando mais importância à própria mobilidade do que ao poder de fogo, pegou apenas duas leves pistolas laser de curto alcance, e uma faca disruptora. Embainhou a faca em suas costas, na calça, e com uma pistola em cada mão voltou para as ruas.

Decidida a ir até o prédio de comunicações desse setor, para avisar a cidade-capital, Iad, Ashanti continuou sua estratégia de se mover pelas sombras, evitando a atenção dos homens e os ruídos de batalhas cada vez mais freqüentes na cidade. A raiva que ela sentia só podia ser controlada graças aos vários anos de experiência em situações de guerra fornecidos pelo duro treinamento da academia. Durante sua jornada pelas ruas, Ashanti não conseguia deixar de pensar na experiência fora da cidade que teve no primeiro ano de treinamento da academia militar, em uma disciplina chamada sobrevivência subzero.

“Todos os alunos desembarcarão a uma distância equivalente a quarenta quilômetros do ponto de encontro. Serão fornecidos como material apenas suprimento alimentar para dois dias, uma pistola laser com carga limitada, um cantil com sistema térmico independente, um uniforme térmico em boas condições de uso, um estojo de reparos para uniforme térmico, um estojo de primeiros socorros e um estojo de construção de fosso térmico. Além disso, para os que não agüentarem a tarefa, possivelmente a maioria de vocês, um aplicador de soro criotrânsico, e um rádio para pedir salvamento. Não preciso lembrar a vocês, que qualquer aluno que recorrer a esse recurso será expulso da academia permanentemente. Todos já foram instruídos em como usar os aparelhos, portanto, não direi mais nada. Para encerrar, um último lembrete. A unidade onde estamos voando não aterrissará para que vocês possam descer. Todos pularão de uma altura de dois ou três metros, em um local escolhido por vocês, a uma velocidade baixa o suficiente apenas para evitar que vocês morram. Se alguém quebrar algum osso durante a descida, tem como escolha continuar, ou chamar ajuda. As regras são as mesmas para quem pedir ajuda por causa disso. Ao escolher o local, procurem por um fosso de neve fofa, como vocês já foram ensinados a reconhecer. Nenhuma pergunta, o primeiro aluno pode se preparar para saltar.”

Ashanti se lembrava claramente dos comentários duros do instrutor de sobrevivência subzero. Não se julgava capaz de sobreviver àquilo. Mas quando aterrissou na neve fofa, sem se machucar seriamente, e viu a unidade indo embora, se sentiu ao mesmo tempo capaz de qualquer coisa, e irremediavelmente perdida. Mas o que ela poderia fazer naquele momento além de lutar? Ajustou a claridade de seus óculos de campo, e depois de consultar a bússola, começou a caminhada. A temperatura ao redor dela quase chegava a -100 graus e a sensação térmica era de um frio muito maior graças ao vento.

A ausência de uma estrela ativa no sistema de Naradan tinha há muitos anos eliminado o conceito de noite/dia, que Ashanti só conhecia dos arquivos e simulações dos computadores da academia. Assim, para o desafortunado viajante da neve, era possível escolher os próprios horários de viagem de forma completamente pessoal. O clima em Naradan era bem estável, sendo sempre obviamente muito frio, e com ventos fortes. As fortes chuvas de Naradan ocorriam principalmente nas regiões perimetrais às crateras, as únicas áreas quentes o suficiente para evaporar água e criar chuvas, sempre atingindo as nações de forma intensa. Além da claridade das estrelas e dos óculos de campo, durante a maioria do tempo, em qualquer ponto do planeta, pelo menos uma das três opacas luas de Naradan estava no céu para dar uma tímida ajuda para que o viajante pudesse discernir melhor entre as diferentes formações do solo, rochas, bancos de neve, bancos de gelo, etc. Para o viajante da neve, nada é mais importante do que conservar calor.

“Habitualmente, quando se viaja na neve em campo aberto, a pé, se faz um calculo de distância e tempo gasto. O tempo de viagem diário é definido a partir disso, de forma decrescente. Ou seja, viaje mais no primeiro dia, e vá diminuindo o tempo de viagem dia após dia. Isso evita desperdício de energia. Aliado a isso, o consumo de suas reservas alimentares deve crescer a cada dia. Lembrem-se que a única forma eficiente de se gerar calor pessoal na neve é a alimentação hipercalórica propiciada pelas rações. O período dentro do fosso térmico não lhes dá energia, apenas evita sua perda durante o descanso, ajudando seu corpo cada vez mais debilitado a metabolizar melhor sua alimentação. É um cálculo muito importante. Qualquer erro nesse cálculo pode acarretar a morte do viajante. Se vocês perceberem um erro em seu cálculo trilha/descanso, consertem de imediato. E torçam para que não seja fatal. Na maioria das vezes é.”

Ashanti também se lembrava com clareza dos ensinamentos do seu instrutor-da-neve. Enquanto estava lá em campo aberto, se lembrou das características do traje térmico, e sua capacidade de vedação contra o mortal frio externo. Sabia que durante a viagem o calor seria perdido, e somente as crescentes horas em um fosso térmico cavado profundamente na neve e alimentação hipercalórica poderiam evitar uma hipotermia fatal.

Seus pensamentos foram interrompidos por um grito vindo de uma das construções próximas, uma voz que Ashanti conhecia muito bem, pois era a voz de um amigo. Quando Ashanti reconheceu a voz de Abel suplicando pela própria vida, não pôde resistir.

Adentrou o prédio de onde vinham os gritos, e subiu correndo as escadarias em direção aos gritos de Abel. Correu por mais alguns passos pelo corredor, até a sala de onde vinham os gritos, arrombando-a com um chute. De imediato, contou dois homens no mesmo uniforme azul que vira anteriormente.

Rolou para o lado se esquivando de um tiro dado por um dos soldados, e imediato começou a atirar contra os dois. Porém, como ela percebeu de imediato, o estranho traje aparentemente absorvia o disparo laser, sem sofrer qualquer tipo de dano.

Terminou o movimento de rolagem agachada atrás de um balcão feito de pedra, que, como esperava Ashanti, deveria retardar suficientemente os disparos dos inimigos enquanto ela pensava em uma nova estratégia. Olhou para um lado, e em seguida para o outro lado, e colocou uma das pistolas na cintura, pegando a faca disruptora.

Quando os soldados se aproximaram do balcão, com as armas em punho, um de cada lado, Ashanti em um movimento muito rápido, pulou para trás, caindo agachada sobre o balcão. Novamente em uma velocidade muito grande, fez um arco com a mão direita da faca, em angulo decrescente, cortando o uniforme do soldado do ombro direito, pelo peito, saindo do lado esquerdo do corpo. O sangue do homem jorrou por sobre a bancada, mas Ashanti já havia saído dali, seguida de perto pelos disparos do outro soldado. Aterrissando no solo poucos momentos depois do corpo do primeiro homem bater inerte no chão, Ashanti resolveu apostar tudo em um único movimento, e jogou a faca na direção do soldado, mirando o peito. Infelizmente, o lançamento foi em vão, já que o soldado conseguiu rebater a faca usando sua pesada arma laser. Girando a arma para o local onde Ashanti se encontrava quando jogou a faca, o soldado se deparou com um local vazio. Olhou para os lados, e viu apenas Abel tentando se esconder atrás de uma mesa de informações. Foi quando olhou para cima, e notou a portinhola de ventilação aberta. Atirando para cima de forma quase incessante, fez vários rasgos na tubulação, mas a ausência de um grito por sua vitima começou a deixar o soldado em pânico. Foi quando sentiu a lâmina fria em suas costas, e seus órgãos vitais sendo rasgados.

Ashanti nunca entrou na porta de ventilação; se escondeu novamente atrás do balcão, e com um rápido disparo cortou a trava da portinhola. E enquanto o soldado atirava para cima inutilmente, recuperou a faca e completou o serviço.

Abel correu chorando para perto de Ashanti, com várias escoriações no rosto. Ainda bastante nervoso, falando de forma quase ininteligível, disse para ela:

- Ashanti, obrigado, eu pensei que ia morrer, esses homens, tomaram toda a cidade, fizeram o prefeito de refém, mataram muitas pessoas, Ashanti, eu...

- Calma Abel. – Disse Ashanti, compreensiva, para o amigo, que não tinha nenhuma experiência militar. – Quero que você se esconda, enquanto eu vou tentar chegar ao prédio de comunicações do setor, e avisar Iad. Não saia do seu esconderijo sob hipótese alguma.

Ashanti pegou a arma de um dos soldados, e apontando para um dos corpos inertes no chão, deu um disparo. Novamente o uniforme absorveu o laser, deixando Ashanti bastante apreensiva.

- Esses uniformes podem absorver laser. Isso torna dificílimo combatê-los. Mas agora vá, porque eu tenho que...

Mas Ashanti nunca completou a frase. Um raio a atingiu pelas costas, vindo da abertura formada pela porta arrombada da sala. Ashanti ainda conseguiu se virar para ver o atacante, mas tudo que pôde ver foi um borrão azul atirando novamente, agora contra Abel, antes que o mundo ao seu redor se apagasse.

sábado, 2 de outubro de 2010

Naradan: Chegada em Noriad - parte 1

No quarto escuro, muito pouco se via e nada se ouvia além da inconstante respiração do homem deitado na enorme cama e alguns zumbidos característicos de aparelhos eletrônicos em sua atividade monótona e rotineira. A única luz somente se projetava de uma clarabóia solitária no teto. A respiração do homem era um som que transmitia um sentimento de cansaço, de um corpo já não tão viril e saudável quanto o de um jovem. A temperatura no quarto era quente, principalmente se comparada à temperatura nos demais ambientes do prédio, e mais ainda, à temperatura fora da cidade. Pela clarabóia era possível fitar o céu, uma imagem que em Naradan era bastante estática; nuvens densas levemente avermelhadas graças à luz oriunda da cratera cobrindo quase tudo, e onde se podia ver o espaço, uma enorme quantidade de estrelas se mostrava, e eventualmente uma das opacas luas também.

A calma trazida pela escuridão e pelo silêncio estava prestes a acabar.

O som de metal sendo rasgado pôde ser ouvido por toda a mansão, ecoando pelos corredores. Isso, contudo, não abalou o sono do homem. Depois de alguns momentos, o som se repetiu, muito mais alto e intenso do que o primeiro. E posterior a esse ruído, gritos, e explosões, além do característico som de armas laser. O alarme disparou ensurdecedor na mansão, mas no quarto, com suas paredes isoladas, era apenas mais uma suave pincelada na composição sonora da cena. O homem na cama abriu os olhos, mas a princípio não tomou conhecimento dos sons, em seu estado semi-desperto. Novamente, o som ecoou nos aposentos, agora mais próximo. Ele então finalmente acordou, e lentamente se sentou na cama. Esticou o braço e puxou para cima de seus ombros um pesado sobretudo com a insígnia de Noriad, uma roupa respeitada em todos os cantos do planeta, usada pelos Regentes de Noriad por séculos antes dele, e – pelo menos este homem gostava de pensar assim – continuaria sendo usado por milênios depois dele.

Com a dificuldade típica de membros enferrujados pela idade, o velho homem pôs-se de pé. Mesmo a idade não conseguiu retirar a aura de imponência que a figura transmitia: Alto como todos os homens de sua família – embora já bastante encurvado, no alto de seus setenta e quatro anos de idade – vestia o longo sobretudo de grosso tecido negro, com um escudo em forma de triângulo no peito, em couro vermelho, onde a insígnia de sua família aparecia trabalhado a fogo. Longas mangas cobriam as mãos do homem, assim como a barra do sobretudo cobria todo o comprimento do corpo até os pés. Pendendo de duas insígnias de metal nos ombros, uma corrente prateada se punha ao longo do peito, formando um arco. Na cabeça, além dos pesados óculos cobrindo seus olhos, apenas um gorro do mesmo material escuro e grosso cobria seus cabelos ralos e grisalhos. Toda essa vestimenta, de um estilo bem antigo, contrastava muito com a tecnologia espalhada pelo quarto, e em geral por toda Noriad.

O som da batalha se fazia mais próximo a cada momento.

De um suporte da cama retirou uma bengala, de um material agora muito raro: madeira natural. Era o símbolo do poder em Noriad. A própria cama era feita de pedra e metal, materiais abundantes em Naradan. Essa mesma bengala havia pertencido a dez regentes antes dele, passada de pai para filho, tal como um cetro real seria passado de rei para príncipe.

Novamente o som ecoou nos corredores, agora assustadoramente perto. O homem já estava apreensivo, já que explosões e alarmes não combinavam com o pacato estilo de vida de Noriad, uma nação que mantinha uma paz comprada com sua razoável produção de Pandranium, e com a oferta de conhecimento.

Os sons chegaram à porta dos aposentos do homem. Gritos puderam ser ouvidos do quarto, pouco antes dos corpos dos soldados de sua guarda pessoal atingirem com força as portas do aposento, entreabrindo-as depois do som de disparos laser. Apreensivo, ouviu vozes vindas do corredor; entretanto eram em um idioma estranho, que Tanimar nem falava, nem nunca sequer tomara conhecimento da existência. As duas vozes iniciais se calaram quando uma terceira, sem dúvida nenhuma a voz de um líder, falou algo em tom questionador, e depois de respondido pareceu dar ordens aos dois homens.

Tanimar estava paralisado. A grande porta maciça se abriu, uma metade para cada lado, e o Regente pôde ver as três figuras driblando os corpos dos guardas para entrar no quarto. Ofuscado pela luz dos corredores, tudo que Tanimar pôde distinguir foram três vultos inumanos, dois segurando as portas, e um terceiro adentrando o aposento em passos muito decididos. As duas criaturas soltaram as portas e entraram também, um deles tocando o painel que controlava as luzes do quarto. Piscando para se adaptar à nova claridade, o homem de idade enfim pôde vislumbrar as figuras. Os três utilizavam uniformes iguais, distintos apenas pela cor, sendo os da dupla azuis, e o do terceiro homem, prateado. Cada um deles carregava uma arma de um tipo desconhecido por Tanimar; os mecanismos, porém, se assemelhavam aos das armas laser fabricadas em Yvot. Grandes semi-esferas vítreas espelhadas estavam acopladas aos uniformes, cobrindo totalmente as cabeças dos homens. Tanimar olhou atentamente para o homem que vinha em sua direção tentando entender a situação, mas somente o que pôde ver foi seu reflexo no domo espelhado do uniforme, sua imagem deformada, seu antigo rosto com uma nova forma irreconhecível para ele próprio.

Ainda sem reação por causa da inusitada situação, o Regente de Noriad olhou para a mão esquerda do homem em uniforme prateado, esperando por um ataque, quando ele tocou um painel no peito de sua estranha vestimenta, e uma voz, falando no idioma de Noriad, porém com um sotaque que soava muito estranho para o velho homem saiu de um auto-falante localizado no mesmo painel:

- Regente Tanimar, nós temos agora toda Noriad sob nosso controle. Não somente a cidade-capital, mas as três cidades-satélites também. Somos numericamente superiores aos homens de sua segurança, mais organizados, e com poderio bélico imensamente maior. Quero que o senhor ordene a todos em Noriad que se rendam às nossas forças, de modo a evitar a chacina eminente. Meus homens têm ordens de exterminar qualquer tipo de ameaça a nossos planos de conquista. Noriad está a partir de agora sob domínio do exército neonaradanês e não há nada que seu povo possa fazer para mudar isso. Sua única escolha é como a nossa dominação vai ocorrer, dizimando seu povo, ou não.

Tanimar se sentiu ainda mais confuso com as ameaças, e numa tentativa um tanto quanto desesperada em dar uma resposta à altura disse:

- O território de Noriad pertence somente aos noriadianos, nossa soberania é reconhecida pelo Conselho das Quatro Nações, e seja você quem for, exijo explicações imediatas sobre toda essa situação. Não consigo imaginar que força nesse planeta poderia ser tão ousada e temerária ao ponto de invadir Noriad.

- O problema, senhor – disse o homem em prateado – é que nós não somos desse planeta.

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Disparos laser cruzavam o ar em todas as direções, e o fétido odor de corpos carbonizados impregnava o gélido ar ao redor de Califar. Estava encostado atrás de uma barreira, com apenas dois de seus vinte homens junto com ele, os únicos sobreviventes da tropa que guardava o portão principal de Iad. Califar só podia imaginar se tal massacre ocorria simultaneamente em todos os portões da cidade, já que as comunicações foram desativadas completamente, antes que os primeiros disparos começassem a abater seus homens.

Nenhum alarme soou – pensou ele, e isso era no mínimo inquietante. Noriad era extremamente bem guardada. A ausência de qualquer aviso só podia significar que alguém dentro de Iad teria encoberto a invasão até o ponto crítico. Pelo menos era o que Califar pensava em seus devaneios durante os poucos instantes de silêncio entre as ondas de ataques inimigos. Os dois soldados com ele estavam atirando por sobre a barricada, enquanto Califar preparava sua arma para mais uma rodada de tiros. Podia sentir em sua mão o calor da pistola laser superaquecida, mesmo através de sua grossa luva. – Essa vai precisar de alguns segundos para resfriar – pensou ele. Colocou a pistola no coldre da direita e sacou uma outra idêntica do coldre da esquerda do seu cinturão. Levantou-se junto com os dois e percebeu que os homens em uniformes azuis estavam se aproximando cada vez mais. No espaço entre eles, Califar pode reconhecer vários dos homens da sua guarnição, porém, nenhum corpo com aqueles trajes azuis forrava o chão junto de seus companheiros - Os melhores homens de Noriad, e não conseguimos abater nenhum deles. E eu tenho certeza de ter atingido pelo menos seis disparos. – A verdade era óbvia, mas ele se recusava a acreditar. Porém, era a única explicação possível: as armas laser dos noriadianos eram totalmente ineficazes contra os estranhos trajes reluzentes.

- Estamos quase sem carga senhor – Disse o soldado à direita – temos que tentar outra coisa. Eu conto aproximadamente quarenta deles, e em segundos estaremos cercados. Alguns deles desapareceram da linha de frente, e sem dúvida já nos estão flanqueando.

Califar deu a única ordem que seu orgulho ferido poderia conceber naquela situação desesperadora:

- Ataquem até a morte. Não nos renderemos.

E embora essa fosse realmente a sua intenção, ele nunca pôde concretizá-la. Como já era de se esperar, quatro soldados inimigos, apareceram atrás deles. Um disparo atingiu Califar no peito, e uma sensação de calor percorreu todo o seu corpo; ele pensou que fosse explodir: seus ossos doíam como se arranhados por agulhas. Os pulmões simplesmente não respondiam mais ao desejo primitivo de Califar de respirar. Ele podia senti-los inflando-se, mas era como se o ar simplesmente se recusasse a entrar. Os músculos já não respondiam também. A sua visão começou a turvar, e ele pensava que a morte estava chegando para ele. E antes de fechar seus olhos, presumindo ser a última vez que veria o mundo, a última imagem que ele captou foi a visão de seus dois homens restantes sendo cortados por raios laser das armas inimigas, caindo inertes no chão ao seu lado. Já de olhos fechados Califar pronunciou de uma forma absolutamente incompreensível para os seus captores, uma única palavra, que veio à sua mente naquele momento:

- Ashanti...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A cor branca - parte 1

A parede branca. A cama com lençóis brancos, o criado branco, as outras três paredes brancas e a porta branca, nada mais. O pensamento longe, concentrado no nada, no vazio, e em todas as oportunidades que ele proporciona. Tomé estava deitado em sua cama. Só Tomé conhecia o branco.

Um grito de mulher, desesperado. Tomé sentou-se na cama, sobressaltado. Pegou o sol de frente pela janela, refletido pelos impossíveis prédios de milhares de andares, cobertos de vidro, monótonos.

- Espere – disse o gato – ainda não.

De sobressaltado, Tomé passou a quase enfartando. Um gato preto deitado no seu tapete, perto da pintura A Gare.

- Quem é você?

- Ninguém. Um amigo, provavelmente. Mas você não me conhece. A propósito, só você pode me ver. Aconselho não comentar com ninguém.

- Como assim? Eu não programei nem baixei você.

- Eu sei, no entanto, aqui estou. Estou sendo exibido direto pelo seu Elo. Só você pode me ver, mas claro, só se você quiser.

Tomé se lembrou do grito e saiu pela porta do quarto. Saiu do apartamento minúsculo procurando, e viu a porta de sua vizinha de frente escancarada. Entrou, e viu. Maria estava deitada no chão, olhos arregalados, pálida, pacotes espalhados ao seu redor. Não parecia muito plácida. Devia ter sofrido um pouco.

- Sim, está morta. Não toque nela. Assassinatos são raros, mas os azuis ainda sabem colher provas.

Chocado, Tomé se encostou na parede e deslizou até o chão. Tinha dormido com Maria uma vez, mas não tinham sentido vontade de repetir. Era bonita, mudava a cor dos cabelos praticamente todos os dias, e adorava usar plumas cor-de-rosa na roupa, meio extravagantes, mas para Tomé isso não era um problema. A falta de criatividade sim. Maria só sabia falar de seu emprego, e isso, numa sociedade que praticamente não trabalhava, demonstrava uma profunda falta de criatividade. No que trabalhava mesmo?

- Quem está transmitindo você para mim?

- Segredo – disse o gato – a morte de Maria é só o começo. Uma revolução está vindo, meu caro. Todo o Elo está vulnerável, e seu papel será relevante. Prepare-se.

- Que diabos você está falando? Tenho problemas maiores pra me preocupar agora. Suma.

E o gato sumiu.

Tomé projetou uma conexão com o serviço de emergência para comunicar o ocorrido. Algo que séculos atrás seria chamado de tela apareceu no ar, pura informação, números, palavras e imagens, projetados, levemente translúcidos desde a última mudança que Tomé fez no design. Na verdade, um homem pré-elo ficaria muito curioso ao olhar para a cena, já que nada de fato havia no ar. A informação estava sendo projetada diretamente em seu córtex visual.

A atendente já sabia o endereço e já estava mandando uma unidade antes mesmo de Tomé dar bom dia. Já tinha o endereço e os dados de Tomé antes mesmo que ele descrevesse a cena que encontrou. Já o tinha listado como testemunha e marcado a audiência antes mesmo que ele desligasse.

Voltou para seu apartamento e sentou-se em seu sofá. Chateado e intrigado, fechou os olhos enquanto ouvia os paramédicos escaneando o corpo dela, rodando a rotina de autópsia e oficializando a hora da morte de Maria. Porém, ninguém mencionou a causa mortis.

Resolveu ir até lá, e abriu a porta. Viu uma cena curiosa: Maria, sob um lençol branco, flutuava há pouco menos de um metro do chão. O paramédico tinha as duas mãos no ar, como se manuseasse algo. O resultado era muito parecido com um mágico levitando a sua assistente.

Um azul se aproximou de Tomé.

- Amigo, você que a encontrou hein? Já ia bater na sua porta. Viu algo de estranho?

Um gato preto que fala, talvez? – pensou Tomé, segurando um riso nervoso. Melhor não comentar, disse o gato. Vamos seguir o conselho do gato, isso atesta muito bem sua sanidade, Tomé.

- Amigo?

- Ah, desculpe. Não, nada de estranho, só um grito. Ela gritou, saí do meu apartamento, a porta dela estava aberta e ela estava no chão, deitada. Projetei a conexão e informei o fato. Só.

- Sei, sei.- o azul agora manuseava o ar, como o paramédico. Nada para ver também. Maldita confidencialidade, pensou Tomé. Estaria registrando “o rapaz parece suspeito”? – Eram íntimos?

- Saímos uma vez, mas atualmente éramos só amigos de elevador.

- Sei, sei. Ok. Você está intimado, já sabe não é?

- Sim, recebi o comunicado.

- Ok, a gente se vê amanha. Meu nome é Paulo, a propósito, meu cartão.

Uma projeção com os dados e a foto do detetive apareceram no meio do ar. Tomé copiou os dados com os olhos, e o cartão sumiu.

- Obrigado, amigo. Até.

- Até.

Tomé voltou para o seu apartamento, bateu a porta. Lá estava o gato de novo olhando para ele, sorrindo.

- Não sabia que gatos sorriam.

Como o gato continuou sorrindo, um pouco tolo, entrou na cozinha para pegar um copo de água.

- Tomé – disse – não posso revelar mais ainda, mas você corre perigo.

Tomé ficou com o copo d’agua na mão, somente olhando, encostado na parede. Ao seu lado, uma pintura de Deschamps, com um cachimbo e uma frase em francês.

- Vejo que você gosta de arte. Muito domínio sobre as cores, tinham esses pintores de antigamente, mesmo com métodos tão rudimentares como tinta e tela. Mas nem todas as cores eles foram capazes de dominar.

- Uns tinham mais domínio do que outros. Você é um jogo? Foi Augusto que mandou você não foi?

O gato levantou uma das patas dianteiras e a lambeu lentamente. – Você ainda não está levando a sério está? Mesmo vendo sua vizinha assassinada. O primeiro assassinato no Brasil em cinqüenta e oito anos, setenta e seis nessa megacidade.

- Assassinada, não seja ridículo. Ela deve ter tido algum problema de saúde.

- Amanhã seu interrogatório será tenso. Talvez perigoso até, para a sua saúde, eu aconselharia você a não comparecer. Mas sei que depois que eu desaparecer você vai pensar “ei, dane-se o gato estúpido, o que poderia me acontecer em uma audiência sobre uma vizinha que teve um derrame ou algo parecido?”.

- Provavelmente.

- Pois bem, cuide-se. Quando você precisar, tentarei aparecer. – disse o gato. E então sumiu.

domingo, 19 de setembro de 2010

Bem-vindos

Caros amigos,

Como será o amanhã? Esta é provavelmente uma das perguntas que mais martelam nossas cabeças. Quando o ser humano despertou sua consciência, perdeu sua paz, pois desejou saber aquilo que não sabe. Ganhou, porém, a imaginação para idealizar, e mesmo sem saber as respostas para tudo, pôde sorrir.

A ciência aos poucos se desenvolve e caminha para o futuro, a humanidade cresce e se desenvolve, mas queremos saber já o que ocorrerá milhares de anos no futuro. A ficção científica, através da imaginação, nos ajuda a satisfazer o desejo de crescer mais, e mais rápido.

Frank Herbert, Julio Verne, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, William Gibson, Philip K. Dick, Douglas Adams e muitos outros. Homens que ousaram ir além do nosso mundo, do nosso tempo, do nosso espírito. Encontraram algo rico, que frutifica nas mentes de milhões de pessoas. Que emociona, que empolga, que faz rir e chorar, pensar e refletir. E mais: Ao sonhar o futuro, inventaram o presente.

Crônicas Visionárias de um Futuro Possível é o reflexo do meu desejo de testemunhar o futuro, a evolução da nossa espécie, da tecnologia, do mundo - um desejo de sobreviver ao tempo. Escreverei aqui contos e histórias da minha própria imaginação e percepção. Coisas que penso e sonho no meu dia-a-dia, inspirado por grandes mestres, como meus amigos acima.

Espero que gostem. Sejam bem-vindos.